segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A Rua da Vida (Conto)

Todo dia Ana descia a Rua da Vida, muitas das vezes correndo para não se atrasar para o trabalho. Seus passos já eram quase automáticos; quando saía de casa com outra direção do trabalho, via-se embrenhando pela mesma rua.

Era manhã, e lá ela ia de novo.

-Bom dia, Aninha! Bom dia de trabalho, filha!

Aquela mesma voz forte, suave e reconfortante a cumprimentava todos os dias. Era o Seu Omar. Ela sempre gostou de velhinhos, até com os rabugentos se esforçava. Dava-lhe prazer, uma alegria serena em vê-los, fortes e frágeis, simples e sábios, sérios e engraçados.

Já fazia quase três meses desde que eles tinham começado a se falar. Foi num dia chuvoso de verão, e Ana descia a rua como de costume. Aliás, ela até tinha outras opções de caminho até o ponto de ônibus, mas aquela sensação boa que os idosos lhe davam só tinha na Rua da Vida, com o Seu Omar. Nas outras ruas possíveis não havia um velhinho que, todo dia, estava sentado em sua cadeira de balanço às 6h:50 da manhã.

Naquele dia chovia. Seus pés chapinhavam nas inúmeras poças, e dançavam tentando fugir delas. Até que ela ouviu alguém chamando.

-Ei, mocinha!

Ouvira pela primeira vez a voz do velhinho da cadeira de balanço.

-Sim, senhor!

-Ah, deixa disso de senhor e entra aqui; deixa eu te dar umas meias novas. Se você continuar com essas vai ter uma gripe desgraçada.

-Obrigada, mas eu aguento. Desculpa, mas como o senhor se chama?

-Omar. E a senhorita?

-Ana. É um prazer te conhecer, Seu Omar. O senhor é bem disposto, hein? A essa hora em pé.

-É a velhice, filha, a velhice. Você também vai ser assim; quando não precisar mais trabalhar e acordar cedo, vai madrugar de qualquer jeito. Velho é tudo igual.

-Já que o senhor diz...Por enquanto estou acordando cedo forçada mesmo, e agora preciso ir trab...

-Não, não. Espera aí que eu vou pegar as meias. São limpinhas, viu? São da minha neta, ela esqueceu aqui nas últimas férias. Bem, agora são suas. Se tiver com vergonha, pelo menos troca lá no teu emprego, é sério.

E lá se foi o Seu Omar. Pegou os meias, entregou-as à Ana, e desde aquele dia era sempre a mesma coisa:

-Bom dia, Ana! Bom dia de trabalho, filha!

-Bom dia, Seu Omar! Obrigada.

Quando não estava atrasada, ia até o portão e ficava conversando com o amigo, sobre tudo: futebol (ela era palmeirense, e ele corintiano), comida, televisão, família, doenças, casa, notícias, trabalho, e por aí vai...

No dia seguinte, Ana descia mais uma vez a rua, mas... Silêncio. Sem nenhum cumprimento. Olhou para o lado e viu com decepção que seu amigo não estava lá. Pensou que deveria estar doente, ou mais cansado que os dias anteriores. Continuou seu caminho pensando que amanhã o veria.

O amanhã veio, mas Seu Omar, não.

-Talvez ele tenha saído, é...

Terceiro dia, e nada. E não era qualquer dia, era o aniversário de Ana. Tudo aquilo era muito estranho; seu amigo sabia e esperava ansioso por aquela data, o que estava acontecendo? Decidiu que no dia seguinte, se ele não aparecesse, iria chamar por ele na casa.

Quarto dia. Sem Seu Omar.

-Seu Omar!!! Seu Omar!!! É a Ana, Seu Omar!!!

...

-Seu Omar!!! O senhor está aí? Seu Omar??!!

-Você deve ser a Ana...

-Sim, senhora, me desculpe pela gritaria logo de manhã. É que eu costumava conversar com o Seu Omar e faz dias que eu não o vejo; fiquei preocupada.

-Eu sou a esposa dele. Entre que ele deixou uma coisinha para você. Uma carta.

Ana entrou na casa, e viu a cadeira de balanço guardada num canto.

-Ele falou que você o procuraria- disse a esposa, e entregou a carta para Ana.

"Me desculpe, Aninha... Eu tentei, juro, mas sinto que minhas forças estão acabando...Sinto que vou morrer, filha, antes de poder te parabenizar pelo teu aniversário. Mas, olha, quando eu tiver virado a tal estrelinha no céu, vou te proteger para que você possa cumprir muitas mais primaveras, ou verões, no caso. Hoje eu te dou boa noite, Aninha. Continue dando seus passos na Rua da Vida."

______________________________________________________________________________

Texto de minha autoria revisto pelo meu professor, Everaldo J. C. Pinheiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pelo comentário! Volte sempre :)