quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Negão (Conto)

Uma petição corria pela rua. "O Negão é nosso". Pela primeira vez, os moradores se uniam para alguma coisa. Pelo Negão valia a pena. 

-Ela chegou toda quietinha e agora tá dando o bote! Mas a gente vai deixar? Não! A gente não vai! 

"Ela" era Vera, nova vizinha. Tinha chegado "quietinha", não falava com ninguém, não frequentava os comércios da rua, não tinha ninguém. As crianças a chamavam de Bruxa dos 71, apesar de ser relativamente nova, 40 anos. Rosto inexpressivo, passos rápidos, vestes casuais. 

-Toda aquela antipatia nojenta dela...era chato mas a gente aguentava. Mas o negócio apertou quando ela veio tirar o Negão da gente. Negão é rei aqui, cara. É de todo mundo, saca? Não é propriedade privada. 

O aperto do negócio foi Vera ter acordado mais cedo um dia e pegado o cachorro para ela. Quando a rua acordou, Negão não estava lá. E não porque estava vagando; os que moravam mais perto viram e os outros ficaram sabendo: o mascote da rua estava atrás das grades de Vera, a nova vizinha. 

Já começou o bafafá, o disse-que-disse, e a menininha surgiu com a ideia. 

-Uma petição! Assim ela vai ver que não tem só ela que gosta do Negão. 

Alguém mais influente da rua falou que tudo bem, tentariam isso, mas se não resolvesse aquele cachorro sairia de lá por bem ou por mal. 

Correram pela rua e coletaram 90 assinaturas. Havia uns gatos pingados que ou não conheciam a fama do cachorro (ah, não sei, moço, tem tanto vira-lata por aí) ou nem eram da rua, mas eles faziam questão de explicar, e para se livrar e poder ir para a casa o povo assinava. 

A menininha e o alguém mais influente foram bater palma na casa de Vera e entregar a petição. Ela não estava ou não atendeu. Deixaram na caixa de correio. 

No outro dia, encontrava na calçada um papel: "Caiam fora". 

-Eu disse que se não resolvesse a gente ia dar um jeito. 

"O Negão é nosso, o Negão é nosso". Uma baderna instalou-se no lugar: panelas sendo batidas, gritos estridentes, até outros cães vieram acudir a manifestação. 

Aquilo durou 20 minutos, até que Vera saiu e abriu o portão, deixando Negão sair. Assim. 

Silenciosamente. Com as narinas dilatadas de nervoso, entretanto... 

O cachorro foi recebido por uma verdadeira algazarra, quase um "Dia do Fico", mas na verdade o 

"Dia do Fui Liberto (Au Au)". 

No dia seguinte Vera mudou-se de novo. 

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Esse conto eu fiz para uma atividade da faculdade, inspirado num cachorro que vivia na minha antiga rua. Logo depois que eu me mudei, fiquei sabendo que ele tinha sido envenenado e morrido. Sendo assim, esse post fica em homenagem dele.

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